Arquivo do mês: julho 2011

Recortes 1 – Poesias

Trecho extraído de 111 poemas para crianças de Sérgio Capparelli.

***


Seu lobo

Seu lobo, por que esses olhos tão grandes?

Pra te ver, Chapeuzinho.

Seu lobo, pra que essas pernas tão grandes?

Pra correr atrás de ti, Chapeuzinho.

Seu lobo, pra que esses braços tão fortes?

Pra te pegar, Chapeuzinho.

Seu Lobo, pra que essas patas tão grandes?

Pra te apertar, Chapeuzinho.

Seu Lobo, pra que esse nariz tão grande?

Pra te cheirar, Chapeuzinho.

Seu Lobo, por que essa boca tão grande?

Ah, deixa de ser enjoada, Chapeuzinho!

***

Minha sombra

Minha sombra

Me assombra.

Eu dou um pulo no ar

E ela pára no ar.

Eu subo em árvore,

Ela desce escada.

Eu ando a cavalo,

Ela segue a pé.

Eu vou à festa!

Oba, vou nessa!

***

Macarronada

 Macarrão, macarronada,

Nada

De tão bom, na panela,

Nela

A fome se consome,

Some

E depois de transforma,

Forma

Macarrão, macarronada.

***

Traças de regime

 As traças gostam de suspense:

Lêem com cuidado

E de olhos fechados.

 Se estão com pressa,

Comem sanduíches de escritores importantes,

Cecília Meireles, Lygia Bojunga,

Hesíodo e os deuses gregos.

 Elas dão conselhos:

“as histórias lacrimejantes são melhores

Porque facilitam a digestão”.

 E estamos conversados!

 Traças iletradas são sem cerimônia:

Comem heróis, heroínas, enredos,

E no fim devoram o autor.

 Ah, as traças, como evitá-las?

Comem Mario Quintana, devoram os dois

Verissimos (Pai e filho)

E, de sobremesa, encomendam escritores bem

Românticos.

 Olha, lá vai uma arrotando Lobato.

***

De verdade, hein!

 Os meninos

&
as meninas
não fofocam
no recreio,
não conversam
durante a aula,
nunca colam
e são loucos
por escola.

Os meninos
&
as meninas
lavam prato
quando comem,
falam baixo
quando brincam,
nunca colam
e são loucos
por escola.

Os meninos
&
as meninas
ficam calados
quando estudam,
arrumam a cama
quando acordam,
nunca colam
e são loucos
por escola.

Falando sério, hein!

***

Sou eu mesmo

 

Eu só queria ser eu mesmo

E assim, querendo,

Ai de mim!

Você tem

Os olhos da vovó.

Você tem

A boca da titia.

Você tem

Os cabelos da mamãe.

Você tem

As mãos do tio Antônio.

Você tem

O nariz do papai.

Você tem…

Pára, pára, pára,

Quero ser eu mesmo:

E não o Frankenstein!

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Recortes 4 – Monteiro Lobato

Trecho extraído de Memórias de Emília

Emília resolve escrever suas Memórias. As dificuldades do começo. – Capítulo I

“Tanto Emília falava em “Minhas Memórias” que uma vez Dona Benta perguntou:

– Mas, afinal de contas, bobinha, que é que você entende por memórias?

– Memórias são a história da vida da gente, com tudo o que acontece desde o dia do nascimento até o dia da morte.

– Nesse caso – caçoou Dona Benta – uma pessoa só pode escrever memórias depois que morre…

– Espere – disse Emília. – O escrevedor de memórias vai escrevendo, até sentir que o dia da morte vem vindo. Então pára; deixa o finalzinho sem acabar. Morre sossegado.

– E as suas memórias vão ser assim?

– Não, porque não pretendo morrer. Finjo que morro, só. As últimas palavras tem de ser estas: “E então morri…”com reticências. Mas é peta. Escrevo isso, pisco o olho e sumo atrás do armário para que Narizinho fique mesmo pensando que morri. Será a única mentira das minhas Memórias. Tudo mais verdade pura, da dura – ali na batata, como diz Pedrinho.

Dona Benta sorriu.

– Verdade pura! Nada mais difícil do que a verdade, Emília.

– Bem sei – disse a boneca. – Bem sei que tudo na vida não passa de mentiras, e sei também que é nas memórias que os homens mentem mais. Quem escreve memórias arruma as coisas de jeito que o leitor fique fazendo alta idéia do escrevedor. Mas para isso ele não pode dizer a verdade, porque senão o leitor fica vendo que era um homem igual aos outros. Logo, tem de mentir com muita manha, para dar idéia de que está falando a verdade pura.

Dona Benta espantou-se de que uma simples bonequinha de pano andasse com idéias tão filosóficas.”

 

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Recortes 3 – Monteiro Lobato

Trecho extraído de Emília no país da Gramática

Uma idéia da Senhora Emília – Capítulo I

“Pedrinho fez bico, mas afinal cedeu; e todos os dias vinha sentar-se diante de Dona Benta, de pernas cruzadas como um oriental, para ouvir explicações de gramáticas.

– Ah, assim sim! – dizia ele. – Se meu professor ensinasse como a senhora, a tal gramática até virava brincadeira. Mas o homem obriga a gente a decorar uma porção de definições que ninguém entende. Ditongos, fonemas, gerúndios…

Emília habituou-se a vir assistir às lições, e ali ficava a piscar, distraída, como quem anda com uma grande idéia na cabeça.

É que realmente andava com uma grande idéia na cabeça.

– Pedrinho – disse ela um dia depois de terminar a lição – por que, em vez de estarmos aqui a ouvir falar de gramática, não havemos de ir passear no País da Gramática?

O menino ficou tonto com a proposta.

– Que lembrança, Emília! Esse país na existe, nem nunca existiu. Gramática é um livro.

– Existe, sim. O rinoceronte, que é um sabidão, contou-me que existe. Podemos ir todos, montados nele. Topa?”


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Recortes 2 – Monteiro Lobato

Trecho extraído de Caçadas de Pedrinho

E era onça mesmo! – Capítulo I

 “Rabicó fez coisa que ninguém nunca o julgaria capaz: botou-se à árvore que nem gato e conseguiu enganchar-se na forquilha do primeiro tronco. Pedrinho e Narizinho, que estavam no galho acima, puderam agarrá-lo pela orelha e içá-lo fora do alcance da onça. Quando a fera chegou, estavam já todos muito bem empoleirados e livres dos seus botes.

A onça, desapontadíssima, ali permaneceu, sentada sobre as patas de trás, com os olhos fixos nos caçadores que a tinham logrado. Parece que sua intenção era ficar de guarda até que eles descessem.

– Espera que eu te curo – disse Pedrinho, lembrando-se que trazia no bolso um pouco da pólvora dos pistolões. Tomou um punhado e, ajeitando-se no galho que ficava bem a prumo sobre a onça, derramou-lhe a pólvora em cima dos olhos.

A idéia valeu. Completamente cega pela pólvora, a onça pôs-se a corcovear que nem doida, enquanto esfregava os olhos com as munhecas, como se quisesse arrancá-los.

– É hora! – Avança, macacada! – gritou Pedrinho, escorregando pela árvore abaixo.

Todos o imitaram. Apanharam as armas e se arrojaram contra a fera com verdadeira fúria. Narizinho esfregou-lhe a faca no lombo, como se a onça fosse pão e ela quisesse tirar uma fatia. O Visconde conseguiu, depois de várias tentativas, enterrar-lhe no peito o seu sabre de arco de barril. Emília fez o mesmo com o espeto de assar frango. Pedrinho macetou-lhe o crânio com a coronha da sua espingarda. Até Rabicó perdeu o medo e, depois de carregar de novo o canhão, deu-lhe um bom tiro à queima-roupa.

Assim atacada de todos os lados, a onça não teve remédio senão morrer. Estrebuchou e foi morrendo. Quando deu o último suspiro, Pedrinho, no maior entusiasmo de sua vida, entoou um canto de guerra:

– Ale guá, guá, guá…

E todos responderam em coro:

– Hurra! Hurra! Picapau Amarelo!…”

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Recortes 1 – Monteiro Lobato

Os Recortes são trechos selecionados e extraídos de obras que fazem parte do acervo da Sala de Leitura Felicidade Clandestina da UFRJ, através deles temos o interesse de incentivar a leitura dos livros e de outras obras dos autores.

Apreciem!!!

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“Não tenho dúvidas, um país se faz de homens e de livros, eu ainda escrevo um livro onde as crianças ainda possam morar”

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Trecho extraídos de Reinações de Narizinho

Narizinho arrebitado – Capítulo V

A costureira das fadas

“… Enquanto conversavam, dona Aranha ia trabalhando no vestido.
— Está pronto — disse ela por fim. Vamos prová-lo.
Narizinho vestiu-se, indo ver-se ao espelho.

— Que beleza! — exclamou, batendo palmas. — Estou que nem um céu aberto!…

E estava mesmo linda. Linda, tão linda no seu vestido de teia cor-de-rosa com estrelinhas de ouro, que até o espelho arregalou os olhos, de espanto.

Trazendo em seguida o seu cofre de jóias, dona Aranha pôs na cabeça da menina um diadema de orvalho, e braceletes de rubis do mar nos braços, e anéis de brilhantes do mar nos dedos, e fivelas de esmeraldas do mar nos sapatos, e uma grande rosa do mar no peito.

Mais linda ainda ficou Narizinho, tão mais linda que o espelho arregalou um pouco mais os olhos, começando a abrir a boca.

— Pronto? — perguntou a menina, deslumbrada.

— Espere — respondeu dona Aranha Costureira. — Faltam os pós de borboleta.

E ordenou às suas seis filhinhas que trouxessem as caixas de pó de borboleta. Escolheu o mais conveniente, que era o famoso pó Furta-todas-as-Cores, de tanto brilho que parecia pó de céu sem nuvens misturado com pó de sol-que-acaba-de- nascer. Polvilhada com ele a menina ficou tal qual um sonho dourado! Linda, tão linda, tão mais, mais, mais linda, que o espelho foi arregalando ainda mais os olhos, mais, mais, mais, até que — craque!… rachou de alto a baixo em seis fragmentos!

Em vez de ficar danada com aquilo, como Narizinho esperava, dona Aranha pôs-se a dançar de alegria.

— Ora graças! — exclamou num suspiro de alívio. – Chegou afinal o dia da minha libertação. Quando nasci, uma fada rabugenta, que detestava minha pobre mãe, virou-me em aranha, condenando-me a viver de costuras a vida inteira. No mesmo instante, porém, uma fada boa surgiu, e me deu esse espelho com estas palavras: “No dia em que fizeres o vestido mais lindo do mundo, deixarás de ser aranha e serás o que quiseres” …”

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