Arquivo do mês: setembro 2011

RECORTES – CABEÇA DE VENTO, BIA BEDRAN. ED. NOVA FRONTEIRA

Bem, é o seguinte: os adultos têm mania de achar que nós, crianças, temos sempre que aprender com eles, que eles sabem muito porque já viveram bastante, e por isso conhecem quase tudo nessa vida.
Até aí eu concordo, porque eu já ouvi numa música, que eu acho muito bonita (ops! Esqueci o nome dou autor, que pena… Mas eu vou procurar, eu prometo), que “a vida é uma grande escola, onde adultos e crianças, todo dia, toda hora, têm lições para aprender”.
É verdade. Mas eu não concordo com alguns jeitos de falar dos adultos, e eu vou me explicar.
Ontem minha mãe me chamou de cabeça-de-vento, assim num tom de briga, zangada porque eu tinha feito uma coisa errada. Se ela estava tão brava, era sinal que ser cabeça-de-vento não é nada bom!
E aí eu pensei: “ora, coitado do vento… Falado assim como se fosse um xingamento”.

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RECORTES – A MULHER QUE MATOU OS PEIXES, CLARICE LISPECTOR, ED. ROCCO

    

Essa mulher que matou os peixes infelizmente sou eu. Mas juro a vocês que foi sem querer. Logo eu! que não tenho coragem de matar uma coisa viva! Até deixo de matar uma barata ou outra.
Dou minha palavra de honra que sou pessoa de confiança e meu coração é doce: perto de mim nunca deixo criança nem bicho sofrer.
Pois logo eu matei dois peixinhos vermelhos que não fazem mal a ninguém e que não são ambiciosos: só querem mesmo é viver.
Pessoas também querem viver, mas felizmente querem também aproveitar a vida para fazer alguma coisa de bom.
Não tenho coragem ainda de contar agora mesmo como aconteceu. Mas prometo que no fim deste livro contarei e vocês, que vão ler esta história triste, me perdoarão ou não.

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RECORTES – A BOLSA AMARELA, LYGIA BOJUNGA NUNES, ED. AGIR.

Eu tenho que achar um lugar para esconder as minhas vontades. Não digo vontade magra, pequenininha, que nem tomar sorvete a toda hora, dar sumiço da aula de matemática, comprar um sapato novo que eu não aguento mais o meu. Vontade assim todo mundo pode ver, não tô ligando a mínima. Mas as outras – as três que de repente vão crescendo, engordando toda a vida – ah, essas coisas eu não quero mais mostrar. De jeito nenhum.

(…)

Já fiz tudo para me livrar delas. Adiantou? Humm! É só me distrair e uma aparece logo. Ontem mesmo eu tava jantando e de repente pensei: puxa vida, faltando tanto ano para eu ser grande. Pronto: a vontade de crescer desatou a engordar, tive que sair correndo para ninguém ver. Faz tempo que eu tenho vontade de ser grande e de ser homem. Mas foi só no mês passado que a minha vontade de escrever deu para crescer também.

(…)

Se o pessoal vê as minhas três vontades engordando desse jeito e crescendo que nem balão, eles vão rir, aposto. Eles não entendem essas coisas, acham que é infantil, não levam a sério. Eu tenho que achar depressa um lugar para esconder as três: se tem coisa que eu não quero mais é ver gente grande rindo de mim.

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Recortes 4 – Poesias

Trecho extraído de Poeminhas pescados numa fala de João de Manoel de Barros.

***

Poema V

De minha mão dentro do quarto

meu lambarizinho

escapuliu – ele priscava

priscava

até cair naquele

corixo.

E se beijou todo de água!

Eu se chorei…

***

Poema VII

Escuto o meu rio:

é uma cobra

de água andando

por dentro de meu olho…

***

Poema VIII

O sapo de pau

virou chão…

O boi piou cheio de folhas com água:

Eu ia no mato sozinho.

O cocô de capivaras era rodelinhas – bola de gude

Eu quebrei uma com meu sapato.

Todas viraram chão também.

***

Poema X

Vento?

Só subindo no alto da árvore

que a gente pega ele pelo rabo…

***

Desexplicação

Língua de criança é a imagem

da língua primitiva

Na criança fala o índio, a árvore, o vento

Na criança fala o passarinho

O riacho por cima das pedras soletra os meninos.

Na criança os musgos desfalam, desfazem-se.

Os nomes são desnomes.

Os sapos andam nas ruas de chapéu.

Os homens se vestem de folhas no mato

A língua das crianças contam a infância

em tatibitati e gestos.

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Recortes 3 – Poesias

Trecho extraído do livro  Poemas Sapecas Rimas Traquinas de  Almir Correa

***

Insônia coletiva
Os carneirinhos que eu contava

contavam-me também.

Pra eles eu já era mil

pra mim eles só eram cem.

Pulávamos arame farpado

até perder a conta

pra depois deitar no gramado

embaixo da lua tonta.

***


Guloso


Engoli sapo

engoli onça

engoli sucuri

Engoli macaco

engoli prego

engoli colibri

Engoli garça

engoli tucano

engoli tamanduá

Engoli tatu

engoli saí

engoli o que há.

Engoli

engoli

engoli.

Engoli toda fauna brasileira.

Será que fiz besteira???

***

 

O rabugento

Ainda engesso

uma hora quebrada

só pro tempo

jumento

não passar mais nada:

nem passarinho

nem passarada.

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