Eu li!!!

O espaço desta seção é dedicado a promover o diálogo entre leitores de literatura infantil e juvenil. Suas experiências de leitura, sua avaliação sobre os livros que leu são aqui bem-vindas e podem dar início a conversas com outros leitores. Porque nem toda felicidade precisa ser clandestina!

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3 Respostas para “Eu li!!!

  1. Ana Maria de Lima Braga

    EU LI, esses dias, o livro da Tatiana Belinky, “Onde já se viu?”, e a primeira parte foi a que mais me chamou atenção: “Coisa de criança”. Em geral, tudo relacionado a criança me chama bastante a atenção, mas essa parte em especial me fez lembrar de uma das sessões que temos aqui neste blog: os “Pescados”. Em um dos seus capítulos Tatiana conta uma fala de seu filho “pescada” por ela. Vou deixar aqui um trechinho só para deixar vocês com “água na boca”:
    “O que me remete a outro caso, na mesma ordem de ideias, este acontecido com o meu próprio filho, o Ricardo, outro dia — uns quarenta anos atrás.
    (…)
    Mas voltemos ao caso do umbigo. Reparei que o Ricardinho, que falava tão correntemente, deu para dizer ‘ o meu bigo’, ‘o bigo do papai’, ‘o bigo do nenê’; era ‘bigo’ pra cá, ‘bigo’ pra lá, até que eu resolvi corrigi-lo:
    — Não é ‘bigo’, filhote. É umbigo, UMbigo, viu!
    E a reação veio de bate-pronto, com lógica irretrucável:
    — Que é um só, todo mundo tá vendo.”
    Realmente isso é “Coisa de criança”!

    • Ahahahahah. Essa confusão do umbigo parece ser unânime. Tenho uma prima que, quando criança, olhou para o umbigo do meu pai, que é bem grande e estufado, e disse pra mãe: “olha, ele tem dois bigos!”

  2. Larissa Gama

    Na última roda de conversa que teve na sala de leitura, eu falei sobre uma crônica de Luis Fernando Veríssimo, “Lixo”. Já não me lembro mais o que me levou a citá-la na conversa, rs, mas fiquei de postá-la nesse espaço. Li esse texto há alguns e achei muito legal. Não é uma literatura infantil, mas serve pra adolescentes e jovens. Espero que possa contribuir, em alguma mediada, para esse espaço.

    Lixo

    Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam.
    – Bom dia…
    – Bom dia.
    – A senhora é do 610.
    – E o senhor do 612
    – É.
    – Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente…
    – Pois é…
    – Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo…
    – O meu quê?
    – O seu lixo.
    – Ah…
    – Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena…
    – Na verdade sou só eu.
    – Mmmm. Notei também que o senhor usa muito comida em lata.
    – É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar…
    – Entendo.
    – A senhora também…
    – Me chame de você.
    – Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim…
    – É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas, como moro sozinha, às vezes sobra…
    – A senhora… Você não tem família?
    – Tenho, mas não aqui.
    – No Espírito Santo.
    – Como é que você sabe?
    – Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
    – É. Mamãe escreve todas as semanas.
    – Ela é professora?
    – Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?
    – Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.
    – O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.
    – Pois é…
    – No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado.
    – É.
    – Más notícias?
    – Meu pai. Morreu.
    – Sinto muito.
    – Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.
    – Foi por isso que você recomeçou a fumar?
    – Como é que você sabe?
    – De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.
    – É verdade. Mas consegui parar outra vez.
    – Eu, graças a Deus, nunca fumei.
    – Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo…
    – Tranqüilizantes. Foi uma fase. Já passou.
    – Você brigou com o namorado, certo?
    – Isso você também descobriu no lixo?
    – Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.
    – É, chorei bastante, mas já passou.
    – Mas hoje ainda tem uns lencinhos…
    – É que eu estou com um pouco de coriza.
    – Ah.
    – Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.
    – É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.
    – Namorada?
    – Não.
    – Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.
    – Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
    – Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.
    – Você já está analisando o meu lixo!
    – Não posso negar que o seu lixo me interessou.
    – Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia.
    – Não! Você viu meus poemas?
    – Vi e gostei muito.
    – Mas são muito ruins!
    – Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.
    – Se eu soubesse que você ia ler…
    – Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?
    – Acho que não. Lixo é domínio público.
    – Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?
    – Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que…
    – Ontem, no seu lixo…
    – O quê?
    – Me enganei, ou eram cascas de camarão?
    – Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.
    – Eu adoro camarão.
    – Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode…
    – Jantar juntos?
    – É.
    – Não quero dar trabalho.
    – Trabalho nenhum.
    – Vai sujar a sua cozinha?
    – Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.
    – No seu lixo ou no meu?

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