Recortes – Crônica “Onde já se viu?”, Tatiana Belinky, Ed. Ática

Uma tarde de inverno, estava lá eu, na Rua Barão de Itapetininga, mexendo nas estantes de uma livraria. (Não consigo passar poruma sem entrar para fuças no meio dos livros. Desde que eu tinha quatro anos de idade – o que faz muito tempo -, livro para mim é a coisa mais gostosa do mundo. A gente nunca sabe que surpresa cai encontrar entre duas capas. Pode ser coisa de boniteza, ou de tristeza, ou de poesia, ou de risada, ou de susto, sei lá. Um livro é sempre uma aventura vale a pena tentar!)

Pois bem, estava eu ali, muito entretida, examiando os livros, quando de repente senti que alguém me puxava pela manga. Olhei para baixo e vi um menino – um garotinho de uns nove ou dez anos, magrelo, sujinho, de roupa esfarrapada e de pé no chão. Uma dessas crianças que vivem largadas pela cidade, pedindo esmola.Ou, no melhor dos casos, vendendo chicletes ou dropes, essas coisas. Eu já ia abrindo a bolsa para me livrar-me logo dele, quando o garoto disse:

– Escuta, dona… (Naquele tempo, nínguém chamava a gente de tia: tia era só irmã do api ou da mãe.)
– O quê? – falei. – O que você quer?
– Eu… dona, me comprar um livro? – disse ele baixinho, meio com medo.

Dizer que fiquei surpresa é pouco. O jeito do menino era de que precisava de comida, de roupa, isso sim. Duvidei do que ouvira:

– Você não prefere algum dinheiro? – perguntei.
– Não, dona – disse o garoto, mais animado, olhando-me agora bem nos olhos. – Eu queria um livro. Me compra um livro?
– Escolha o livro que você quiser – falei.

***

O menino acabou  se decidindo por um livro de aventura, nem lembro qual. Mas me lembro da minha emoção quando lhe entreguei o volume e vi seus olhinhos brilhando ao me dizer um apressado “obrigado, dona! antes de sair em disparada, abraçando o livro aprtado ao peito.

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RECORTES – O TRISTE FIM DO PEQUENO MENINO OSTRA E OUTRAS HISTÓRIAS, TIM BURTON, ED. A GIRAFINHA

Senhor e senhora Smith tinham uma vida maravilhosa.
Formavam um feliz e normal casal.
Um dia receberam uma notícia que fez do Senhor Smith um homem feliz.
A senhora Smith seria mãe,
o que faria dele pai.
Mas algo deu errado com seu raio de alegria,
não era de todo humano,
era, na verdade, um garoto robô.

(…)

O único momento que parecia vivo
Era quando plugado por uma extensão
em uma tomada na parede

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RECORTES – MENINA BONITA DO LAÇO DE FITA, ANA MARIA MACHADO, EDITORA ÁTICA

Era uma vez uma menina linda, linda. Os olhos dela pareciam duas azeitonas pretas, daquelas bem brilhantes.
Os cabelos eram enroladinhos e bem negros, feito fiapos da noite. A pele era escura e lustrosa, que nem o pêlo da pantera negra quando pula na chuva.
Ainda por cima a mãe gostava de fazer trancinhas no cabelo dela e enfeitar com laço de fita colorida. Ela ficava parecendo uma princesa das Terras da África, ou uma fada do Reino do Luar.
Do lado da casa dela morava um coelho branco, de orelha cor-de-rosa, olhos vermelhos e focinho nervoso sempre tremelicando. O coelho achava a menina a pessoa mais linda que ele tinha visto em toda a vida. E pensava:
– Ah, quando eu casar quero ter uma filha pretinha e linda que nem ela…
Por isso, um dia ele foi até a casa da menina e perguntou:
– Menina bonita do laço de fita, qual é teu segredo pra ser tão pretinha?
A menina não sabia, mas inventou:
– Ah, deve ser porque eu caí na tinta preta quando era pequenina…

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RECORTES – QUEM TEM MEDO DE RIDÍCULO?, RUTH ROCHA, GLOBAL EDITORA

Todo mundo tem seus medos:
de escuro ou de furacão,
de cachorro ou de galinha,
de polícia ou de ladrão.

Mas o medo mais terrível
é de fazer, de repente,
um papel muito ridículo
no meio de toda gente.

Ridículo dá mais medo
do que cair de avião,
do que dar trombada em poste,
do que tiro de canhão!

Dá mais medo que fantasma,
mais medo até que dentista:
mais que cair de cabeça,
que trombar com terrorista!

(…)

Outra coisa que apavora,
que nos dá muita aflição,
é em dia de sabatina
não sabermos a lição…

A gente em frente da classe,
com uma cara de bocó…
Sem saber coisa nenhuma…
Ridículo de dar dó!

Mas às vezes dá mais medo
de saber uma lição
que a classe inteira não sabe.
Você banca o caretão!

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RECORTES – CABEÇA DE VENTO, BIA BEDRAN. ED. NOVA FRONTEIRA

Bem, é o seguinte: os adultos têm mania de achar que nós, crianças, temos sempre que aprender com eles, que eles sabem muito porque já viveram bastante, e por isso conhecem quase tudo nessa vida.
Até aí eu concordo, porque eu já ouvi numa música, que eu acho muito bonita (ops! Esqueci o nome dou autor, que pena… Mas eu vou procurar, eu prometo), que “a vida é uma grande escola, onde adultos e crianças, todo dia, toda hora, têm lições para aprender”.
É verdade. Mas eu não concordo com alguns jeitos de falar dos adultos, e eu vou me explicar.
Ontem minha mãe me chamou de cabeça-de-vento, assim num tom de briga, zangada porque eu tinha feito uma coisa errada. Se ela estava tão brava, era sinal que ser cabeça-de-vento não é nada bom!
E aí eu pensei: “ora, coitado do vento… Falado assim como se fosse um xingamento”.

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RECORTES – A MULHER QUE MATOU OS PEIXES, CLARICE LISPECTOR, ED. ROCCO

    

Essa mulher que matou os peixes infelizmente sou eu. Mas juro a vocês que foi sem querer. Logo eu! que não tenho coragem de matar uma coisa viva! Até deixo de matar uma barata ou outra.
Dou minha palavra de honra que sou pessoa de confiança e meu coração é doce: perto de mim nunca deixo criança nem bicho sofrer.
Pois logo eu matei dois peixinhos vermelhos que não fazem mal a ninguém e que não são ambiciosos: só querem mesmo é viver.
Pessoas também querem viver, mas felizmente querem também aproveitar a vida para fazer alguma coisa de bom.
Não tenho coragem ainda de contar agora mesmo como aconteceu. Mas prometo que no fim deste livro contarei e vocês, que vão ler esta história triste, me perdoarão ou não.

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RECORTES – A BOLSA AMARELA, LYGIA BOJUNGA NUNES, ED. AGIR.

Eu tenho que achar um lugar para esconder as minhas vontades. Não digo vontade magra, pequenininha, que nem tomar sorvete a toda hora, dar sumiço da aula de matemática, comprar um sapato novo que eu não aguento mais o meu. Vontade assim todo mundo pode ver, não tô ligando a mínima. Mas as outras – as três que de repente vão crescendo, engordando toda a vida – ah, essas coisas eu não quero mais mostrar. De jeito nenhum.

(…)

Já fiz tudo para me livrar delas. Adiantou? Humm! É só me distrair e uma aparece logo. Ontem mesmo eu tava jantando e de repente pensei: puxa vida, faltando tanto ano para eu ser grande. Pronto: a vontade de crescer desatou a engordar, tive que sair correndo para ninguém ver. Faz tempo que eu tenho vontade de ser grande e de ser homem. Mas foi só no mês passado que a minha vontade de escrever deu para crescer também.

(…)

Se o pessoal vê as minhas três vontades engordando desse jeito e crescendo que nem balão, eles vão rir, aposto. Eles não entendem essas coisas, acham que é infantil, não levam a sério. Eu tenho que achar depressa um lugar para esconder as três: se tem coisa que eu não quero mais é ver gente grande rindo de mim.

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